terça-feira, 9 de julho de 2013

Os teus olhos tem a cor da curva do rio, às margens, eu observo a luz pincelar teu olhar.
Tu cheiras a saudade, o doce odor da chuva sobre mato e terra que guardo fielmente das poucas viagens que fiz. Dos poucos chãos que pisei e me subiram o cheiro de desejar reter na memória.
E a tua pele é neblina aquietando a voz em qualquer superfície que minha presença esteja, abre-me a boca apenas para que o silêncio a alcance.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Rascunhos

gostávamos de brincar de morrer um pouquinho, especialmente às quintas e sextas;

Quando você se interessa por alguém, volta a ser um nenê perdido, aprendendo a andar;

Caiu uma âncora no seu colo;

[ desde de um pouco mais de um ano]

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

há um ano foi assim

"De ti recordo um Outono onde me fui perdendo, noite após noite, entre o teu sorriso e um princípio de paixão que na altura não reconheci como amor. Sei agora que me marcaste profundamente, que me emociono ainda quando penso em ti algures no mundo. Foste muito em tão pouco, talvez seja essa a razão de perdurares em mim até hoje. Aqui, de onde te escrevo e perante estas paredes que parecem erguer-se como a noite que lá fora espreita, penso que a sinceridade que fui te afastou de mim para sempre."


- SigurHead

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Nos abraçamos, provavelmente.

Eu dormi com você. Dormi com você e nem sabia, estava tão cansada, só percebi quando nos levantamos. Isto foi o que aconteceu em meu sonho. Eu olhei para você, enquanto vestia sua blusa, e disse que não sabia que tínhamos dormido juntas - eu olhei seu sutiã preto -, mas você sabia. Sabia com muita tranquilidade que precisávamos dormir juntas porque não tinha onde mais dormir. Nos abraçamos, provavelmente; nos encolhemos uma na outra para nos confortar. Não tinha tal memória, mas fui feliz. Acordada, diante de ti, eu tinha comigo o aconchego que foi a possibilidade dos seus pulsos em mim, dos nossos cabelos esparramados se encontrando no travesseiro. Nunca tínhamos vivido isso antes, mas eu havia sentido saudade.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cortina Branca

O quarto branco:
A luz invadia aquele cômodo que por alguma razão não podia ser mobiliado. Tudo ali era silêncio. A palidez  de uma voz muda cobria as paredes, o teto e o chão. Nem ao menos chorar era possível, no quarto branco, havia algo que travava qualquer ação.
Dentro de mim, este era o espaço mais desconhecido. O lugar onde eu evitava estar. As horas nuas não existiam naquele vácuo. Tudo ali era ausência. Não podia evitar cair na tentação de preencher o cômodo com a memória de seu rosto. A sua voz era o único som permitido, o único som limpo, ecoando seu riso. Seus olhos eram a cor que se destacava. E eu estava presa, quando dei por mim, no quarto branco. Eu estava petrificada junto as memórias que um dia foram nossas.
Uma longa e contínua ausência estagnada no tempo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

"Tinha medo de até onde meu coração podia saltar, tinha medo do meu espírito se aglomerar em tristeza de novo, e que eu me tornasse aquela coisa pequena e trêmula no canto da cama."

- Dividida em Dois - Ruth Connors

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

coração de ninguém *

Começo o trajeto achando estas palavras tão deliciosas na boca, coração de ninguém, palavras que já conhecia e desde o início quis roubá-las pra mim.
Enquanto pronuncio as com um desleixo próprio da sentença, eu penso na tristeza, que observo tão atentamente. Fico imaginando seu rosto baixo. É quase um fato que não me sai da cabeça. Não controlo a ansiedade que é te ver triste e não saber o que fazer a respeito. Eu não tenho gestos quando você arrebenta a voz solitária.
Então penso no coração de ninguém, que é o instante eterno, como Heráclito, somos e não somos. A água correndo rápido pelas pernas, sem tempo de se fixar. E tento te alcançar nessa correnteza incerta. Desprovida de planos, alentos, eu te observo suspirar e me sinto pequena, pequena, pequena.
Talvez se nos beijássemos, tais corações avassaladores sucumbiriam em paz. Tenho em mente a estranha certeza de que me pertenço quando me arranca um beijo. Perigosamente inofensivo, o coração de ninguém descansa num abraço.
Entretanto, a aflição me toma quando penso minha ausência de braços para descansar seu coração, minha ausência de qualquer coisa sólida. E o coração de ninguém passa a ser o coração deserto, onde secam as gostas de orvalho das folhas, que umedecem a manhã.
Continuo a diminuir diante de sua tristeza e sou apenas ninguém com um coração qualquer perante ela.





* título de um blog (hoje com visualização restrita) que sempre gostei.