Onde suspostamente haveria o endereço do destinário estava escrito:
"Não sei quem me enganou mais: se fui eu ou você"
Não sabia. Não importava mais.
A mochila nas costas, embora cheia para suportar dois dias longe, pesava menos do que a ansiedade de finalizar uma ausência que não se rendia nunca.
Bateu à sua porta. Ela ainda dormia, avisaram. Pediu prea vê-la. Precisava tanto vê-la, nem que fosse dormindo, seria até melhor que assim o fosse, vê-la descansando, isso lhe traria alguma paz, pensou.
Sentou-se à cadeira próxima a cama e deixou escapar um minuto - exato um minuto- enquanto olhava aquele ser, deliciosamente repousado entre lençois.
Havia uma cortina clara na janela que permitia que um fragmento da luz do sol transpassasse e tocasse os ombros desnudos e as mãos esparramadas sobre o colchão. Então pegou o envelope e acrescentou em sua fronte:
"O sol nunca toca as peles do mesmo jeito. Não há duas peles iguais. A tua, por exemplo, me faz querer chorar muito."
Colocou-a na escrivaninha.
De pé, debruçou-se sobre o rosto calmo e beijou-lhe a sobrancelha direita. Ela franziu o cenho mas não acordou.
As palavras contidas naquela carta saltavam à sua mente, ora por medo, ora por dor e alívio.
Sabes, eu gosto muito, muito de ti. Não neguei isto.
Antes te preferia livre de mim; não sei porque houve de mudar.
Quis tanto ter-te aqui dentro sem peso, porém, agora eu preciso ir embora.
Dói abrir a palma de minha mão e deixar a tua partir.
Mas assim o queres...
Hoje, também quero partir. Por favor, me deixe partir, é tudo que te peço. Não olhes pra trás dessa vez que eu prometo tentar fazer o mesmo.
Esta aí tua liberdade que se enrustiu um pouco por minha causa. Não a quero. Acontece que nunca beijei-lhe a cicatriz do joelho. Não fui eu quem te abraçastes nas madrugadas.
Espero, ao amanhecer, que tua voz ainda seja capaz de me acalmar.
E nestas palavras contêm um abraço, o mais silencioso, o mais longo e o mais terno de todos nossos abraços.
Estamos livres.

