quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Adeus

Desceu as escadas com certa pressa enquanto selava um envelope azul.
Onde suspostamente haveria o endereço do destinário estava escrito:
"Não sei quem me enganou mais: se fui eu ou você"
Não sabia. Não importava mais.
A mochila nas costas, embora cheia para suportar dois dias longe, pesava menos do que a ansiedade de finalizar uma ausência que não se rendia nunca.
Bateu à sua porta. Ela ainda dormia, avisaram. Pediu prea vê-la. Precisava tanto vê-la, nem que fosse dormindo, seria até melhor que assim o fosse, vê-la descansando, isso lhe traria alguma paz, pensou.
Sentou-se à cadeira próxima a cama e deixou escapar um minuto - exato um minuto- enquanto olhava aquele ser, deliciosamente repousado entre lençois.
Havia uma cortina clara na janela que permitia que um fragmento da luz do sol transpassasse e tocasse os ombros desnudos e as mãos esparramadas sobre o colchão. Então pegou o envelope e acrescentou em sua fronte:
"O sol nunca toca as peles do mesmo jeito. Não há duas peles iguais. A tua, por exemplo, me faz querer chorar muito."
Colocou-a na escrivaninha.
De pé, debruçou-se sobre o rosto calmo e beijou-lhe a sobrancelha direita. Ela franziu o cenho mas não acordou.
As palavras contidas naquela carta saltavam à sua mente, ora por medo, ora por dor e alívio.
Sabes, eu gosto muito, muito de ti. Não neguei isto.
Antes te preferia livre de mim; não sei porque houve de mudar.
Quis tanto ter-te aqui dentro sem peso, porém, agora eu preciso ir embora.
Dói abrir a palma de minha mão e deixar a tua partir.
Mas assim o queres...
Hoje, também quero partir. Por favor, me deixe partir, é tudo que te peço. Não olhes pra trás dessa vez que eu prometo tentar fazer o mesmo.
Esta aí tua liberdade que se enrustiu um pouco por minha causa. Não a quero. Acontece que nunca beijei-lhe a cicatriz do joelho. Não fui eu quem te abraçastes nas madrugadas.
Espero, ao amanhecer, que tua voz ainda seja capaz de me acalmar.
E nestas palavras contêm um abraço, o mais silencioso, o mais longo e o mais terno de todos nossos abraços.
Estamos livres.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tanto Para Te Dizer

Escrevo-te enquanto um arrepio me toma numa vertigem que me enche o coração de ausência pavor e saudade. Queria que soubesses que hoje corri para o telefone para te contar o sonho que tive ontem e me aterrorizou. Ainda me lembro do teu número. Queria apenas ouvir a tua voz perguntar quem fala. O número que podia marcar já não te pertence e ligar para tua casa seria reviver o pior momento. Tenho sempre tanto para te dizer nos fragmentos da noite. É nas madrugadas que sinto mais a tua falta. (...)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

sobre o silêncio mais íntimo / 15

fiquei a dois metros da janela sem muita exatidão e
sentei-me as pernas curvadas os pés descalços e
abracei os joelhos enquanto chovia nas pedras lisas e
os respingos batiam à janela um por vez e depois em conjunto e
eu ouvia tão bem o silêncio pousado nas folhas amarelas e
de súbito me contorci por dentro com algo que não sabia ser e
era humano demais e via o dia escurecendo preguiçosamente e
com aquela coisa viva dentro de mim embora miúda embora muda e
a vontade de não dizer nada me roía os ossos e a vonatde de olhar e
a vontade de alguma coisa que também não o sabia me arrepiavam e
estremeciam de leve em mim como um sucinto lampejo e
eu ouvia tão bem o silêncio pousado nas folhas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

cainho

Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Os Ninguéns

As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

sobre o silêncio mais íntimo / 14

engulo a saliva que é pra não deixar a vida entalada na garganta.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Diálogo

Com/Para Pastel

-te gosto
-inspira-me
-me retorna a outros mundos
-me clareia o peito
-me escurece a mente...e me deixa mergulhar pra cima
-me expande as asas e lacremeja-me os olhos
-me deixa parado vendo,sem ter coragem de desenhar
-me deixa parada devaniando, sem ter coragem de olhar
-me deixaria ouvindo até dormir em sorrisos
-me elevaria a condição de pássaro com seu olhar perdido no mundo
-já carrega suas próprias asas
-suas palavras sempre guardadas em mim